domingo, 1 de março de 2009

A solução poderia ser cantar novamente...





Voltei do carnaval com um sorriso de lavar a alma. Tudo bem que passei 4 dias trabalhando, estudando e dormindo pouco. Tudo bem que por conta disso tive que dar uma saidinha do retiro, ao qual eu estava, afinal de contas, fazia tempo que eu não rezava tanto.
O fato é que em meio ao Goiás, eu tive uma das experiências mais lindas que já tive nessa vida. Um dia do ano de 2009 em que me senti útil. Que vi minhas escolhas transformarem ambientes, que não tive vergonha de trabalhar, de assumir uma postura diferente da que vinha tendo. Para essa experiência única, segue a narração em três partes.

PARTE I

Era segunda-feira, havia acordado e estava no meio de uma cidade pequena, não posso dizer que era interior, afinal estava alojada numa universidade federal. Catalão é uma cidade bonita, arrumadinha, com uma avenida central, uma represa e outras coisas mais. Estava num curso chamado Arte e Assistência. Antes de falar sobre isso, devo lembrar que particularmente, não gosto de cursos desse tipo, afinal arte para mim é profissão, e sempre que tem arte e religião no meio, algo estranho aparece, ainda mais nos tempos atuais. Visão minha, porém é algo que eu não gosto de misturar. Mas a vida é uma caixinha de surpresas e lá estava eu, fazendo o curso de arte e assistência, minha última opção, dos três cursos que havia escolhido para o seminário. Deus sabe o que faz, afinal o curso foi bom! Pela manha aprendemos algumas dinâmicas, demos boas risadas e trocamos informações. Durante a tarde, iríamos a um lar de idosos. Para quem não sabe, idosos é o público alvo que eu anseio trabalhar, afinal o tema da minha monografia foi: Teatro para terceira idade.
Sem muita verborragia, fiquei feliz ao saber que iríamos para um lar de idosos durante a tarde aplicar a oficina de arte e assistência. Esse tema é muito interessante para mim, afinal, mesmo vendo os idosos de forma acadêmica, o lar que eu escolhi aqui em Brasília é um lar espírita, e também não posso negar o fator terapêutico da minha profissão. Estava anciosa, meus amigos me chamaram para uma cachoeira que ficava por ali na cidade, confesso que se fosse outro esquema, teria ido com eles, mas realmente me interessei em ir ao lar de velhinhos.
Parte II

Nos reunimos a tarde, para pegar o ônibus até Cumari, uma cidade que ficava a 30km. O responsável pela oficina não foi, ficamos perdidos e eu me ofereci para coordenar o grupo, afinal era o tema do meu TCC. Fui então coordenar o grupo, montamos um cronograma com as atividades e eu falei brevemente sobre o tempo na velhice, afinal alguns membros do grupo questionaram sobre as poucas atividades na lista. De fato tínhamos apenas um momento de conhecê-los, tocar algumas músicas, fazer duas dinâmicas e depois uma oração e casa. Isso aconteceria no prazo de 3hs. Saimos de Catalão e fomos para Cumari, confesso que estava super nervosa, afinal meus conhecimentos teóricos iriam ver um pouco de prática. A viagem foi um tanto longa, durou 1hs. Durante o caminho, meus amigos brincavam e eu apenas pedia ajuda para dar tudo certo e me questionava, por quê estava indo para tão longe? Não haveria um lar de idosos em Catalão? Ao meu lado uma senhora de 60 anos me contava a sua vida brevemente, afinal, ela havia acabo de terminar o segundo grau, para melhorar suas condições financeiras. Me orgulho muito de pessoas que fazem isso, foi realmente uma ótima oportunidade para mim, ouvir a senhora relatar isso.
PARTE III.

Chegamos no lar de idosos, mas antes que a história siga, vamos falar do passado. Há aproximadamente 30 anos atrás, um fazendeiro comprou uma casa no centro da cidade de Cumari e deu para 3 jovens especiais que haviam perdido seus pais. Os três moravam ali e nunca lhe faltaram nada. Aparentemente é uma história bonita, afinal, não é sempre que alguém compra uma casa para outras pessoas com o intuito de não vê-las na rua, mesmo não sendo nem seus próprios parentes. Um dia esse fazendeiro morreu, a prefeitura então assumiu a casa, manteve os três lá e foi trazendo mais gente. Essa casa se transformou no lar de velhinhos que eu visitei. Lá dentro poucos senhores, acho que uns 15 apenas. Entramos e fomos conversar. Assim que tudo deu certo, os meninos de Uberlândia começaram a tocar violão, todo mundo começou a dançar, a música invadiu a casa, a felicidade pulou nos olhos. Mandei parar, era hora da brincadeira, precisávamos saber, através do jogo, a situação dos moradores do lar. Fim do jogo, voltamos a cantar, alguns idosos que não saíram do quarto foram visitados por outras pessoas que não quiseram ficar no salão. Assim, a tarde correu, os minutos escorreram, parecia que as horas eram segundos, e logo logo tive que recolher o pessoal. Por incrível que pareça, nosso horário de voltar era às 17hs, e mesmo sem relógio, consegui acabar nesse exato horário. Com certeza o mérito vem dos mentores que auxiliavam o grupo. Esse breve resumo ainda não relata o que sentimos, a volta para Catalão foi marcada por um silencio. Ninguém dentro ônibus fazia alguma brincadeira, algumas pessoas choravam, eu estava feliz, porque vi o rosto deles se transformarem, vi a alegria surgir e invadir as paredes da casa, as frestas. Era carnaval e a festa acontecia para nós dessa forma. Me senti útil, me senti bem. Um amigo me chamou, veio me contar que enquanto eu coordenava o grupo, ele foi até a responsável da casa, que o pediu para sensibilizar as pessoas para voltarem ao lar, afinal, era a primeira vez que um grupo os visitava, e eles precisavam de visitas assim, há exatos 15 anos, ninguém entrava no lar para fazer nenhum tipo de visita. Eu chorei. Não agüentei saber. Era forte demais. Senhores que estavam ali, focados na melancolia, soltavam gargalhadas. Eu fiz o mínimo, não gastei um centavo para estar lá, apenas o meu tempo. Eu não fiz quase nada e ganhei essa história, linda, forte. Aprendi muito e como observei desde o dia que sai para Minas, na primeira viagem, o descaso é um personagem real na nossa sociedade. Voltei para Brasília, infelizmente talvez nunca mais os veja, mas corri para o Lar de Idosos que freqüento aqui. Queria ver meus amigos, queria o abraço deles, mesmo indo lá apenas uma vez por mês. Fim de tarde foi a mesma despedida, agora só em março. Espero que alguém ore por aqueles que em Cumari ficaram. Eu jamais me esquecerei da alegria que eles me deram. Eles talvez nunca mais se lembrem de mim, mas eu sei que esse pequeno ato transformou o carnaval deles. Sem mais palavras.

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