domingo, 13 de dezembro de 2009

Um pouco de versos triste caem bem no final.


É final de ano, o samba toca lento, segue aquela romaria de sair do serviço, entrar no carro, voltar para casa. Em seu peito bate um ritmo descompassado, como se estivesse longe de casa, mesmo estando dentro do quarto.
Sabia apreciar o bom vinho que ficava sobre sua escrivaninha. Era um gosto forte de dissabor. Balançava lentamente a taça, enquanto a doce bebida deslizava pelo copo. Compunha alguns poemas em um papel amarelado pela luz das velas que iluminavam o ambiente.
Há um tempo atrás havia vivido algo de bom, e agora era apenas um resquício do passado, uma alma que deixava queimar acesa as boas lembranças de dias durados. Sentia o sabor das palavras, escorriam-se sentimentos, soltavam-se lágrimas, selecionava rimas. Poemas são como telas, feitos com paciência, tempo e dedicação. Uma arte cuja beleza está na profundidade de palavras rimadas, entrelaçadas sobre o papel pentragramado.
Do outro lado, alguém também poderia estar fazendo a mesma coisa, mas por agora, era apenas a vez dela, daquela pequena mulher forte, que viveu o mais infortuito dos pesadelos e que agora acreditava que viver era incolor. Em seu rosto, as marcas de quem não aceitava estar só e, em seu corpo, o dilema de quem sabia muito bem o que era dançar com a ilusão.
Estava ficando tarde, um triste poema estava sendo relido. Apagaram-se as velas de seu quarto, sentiu o ambiente em volta, se deitou na cama, sentia a boca seca, olhou ao seu redor e viu todo o negro do quarto. Fechou os olhos, agora estava um pouco tonta. Em seu último poema, havia deixado clara a idéia de partir, de ir. Em sua cama deitada, a pequena mulher de alma forte, estava doente. Sua vida estava escorrendo a medida que o seu sangue era bombado. Não poderia voltar atrás, afinal já haviam algumas horas que o doce vinho havia sido tomado. Aos poucos foi se sentindo fraca. Um forte som ecôo pelos ouvidos, era um agudo e contínuo som, acompanhado de toda moleza de seu corpo. Fechou os olhos e respirou pela última vez, e depois de tanto tempo, deu um leve sorriso, por se lembrar que seu triste poema, talvez nem fosse lido.
No outro dia, o mundo continou. Ninguem sentiu sua falta, a não ser o chefe que se encomodava com o seu atraso. Uma raiva enorme ocupou o coração dele, afinal sua empregada não apareceu, e nem haveria de aparecer.

1 comentários:

Eliane F.C.Lima disse...

Ana,
Entendi seu sumiço. Às vezes, eu mesma tento sumir dentro de meu próprio corpo. Minha última postagem em http:/literaturaemvida2.blogspot.com é um sinal disso. Se puder, vá lá e leia o poema, acompanhado da música que toca no vídeo.
Mas, neste momento, estou aqui para lhe desejar um feliz Natal, não importam suas convicções. Apenas recupere o coração infantil que você teve um dia. Ele acreditava em tudo, até em Papai Noel, só porque era capaz de acreditar no mágico. Aproveite o momento para ficar feliz, não são muitos. Deixe a felicidade borbulhar na taça e entornar em 2010.
Abraços,
Eliane F.C.Lima