
O sol apontava vermelho todas as tardes, ressecando as bocas das pessoas da cidade chamada Brasília. O nosso herói, o grande calango, resistia atento ao calor, escorado numa pedra, apenas sacudia a cabeça, como quem concorda com o sol em seu plano maligno.
Ao seu lado um grupo de pássaros se banham nas margens do Paranoá pequeno, murcho de águas, castigado pela falta das chuvas, mas mesmo assim bondoso, por dividir seus leitos com os animais queridos.
Doce calango que corre de um lado para o outro, perde sua pedra para uma menina que acaba de chegar. Ela tão grande nem se atenta, que no lugar do calango acabou de sentar. Observava as maravilhas daquela tarde e se sentia iluminada por poder meditar em um local calmo, bem no meio da cidade.
Enquanto os doces raios do sol cortavam o horizonte, jovens tatuados voltavam do lago, remando seus caiaques, cerrando as águas do cerrado. O calango escondido, ali observava a todos, e mesmo no calor, na época que todos precisam andar em câmera lenta, o grande herói do cerrado deseja cortar o vento, corre como um relâmpago, cortando o espaço, passando entre as saias, numa velocidade que é inenarrável.
Com toda a sua velocidade, o simples calango segue pela estrada da ilusão, sem fazer mal a ninguém, sempre dando o perdão. Simples calango amigo meu, correu para o meio do mato, ninguém sabe no que se deu, porém ele foi prá lá, assim que o sol resolveu se esconder no horizonte do cerrado.
O calango é um réptil, mas também um símbolo muito forte, ele é o pequeno dragão do planalto.


