Lá vem o frio de Brasília, acabaram-se as chuvas, que já incomodavam os brasilenses. Em qualquer lugar da cidade, era possível ouvir alguém dizendo : - aah essa chuva! E daí vinham reclamações de todas as partes. Agora veio o frio. Para quem gosta, nada como um friozinho gostoso, com aquele sol quentinho em contraste com o gelado vento, que fazem os friorentos bater seus queixos e se encolher. Gosto do frio de Brasília, enfim, gosto daqui. Gosto de acender uma fogueira com os amigos, tocar uma viola, ouvir boas histórias.
Um dia desses sai de carro, estava ouvindo Janis Joplin enquanto passava ali pelo congresso, rumo ao trabalho. Estava atenta as pessoas das ruas enquanto internamente eu gritava que nem uma louca junto com a Janis, éramos uma dupla fantástica (dentro do meu imaginário). Um rapaz de seus vinte e poucos anos, passava tranqüilo pela rua. Caminha pelas calçadas da esplanada dos ministérios, com seus fones de ouvidos, sua pasta preta, seus sapatos sociais em conjunto com a roupa também social. Eu de dentro do carro, fitei meus olhos nele, como se naquele segundo, o mundo estivesse em slow moshion. Eu o via caminhar a largos sorrisos, mesmo dentro de seus pequenos passos. O sol batia nele, de uma forma interessante, parecia que um iluminador havia recortado e temperado o spot light solar em sua face, de forma que ele caminhava iluminado, ao som de sei lá o que, mas enfim, era mágico.
Olhei então ao meu redor, cores fortes e vários tons de verdes me cercavam por ali. Eu não sei se era a Janis ou eu, mas algo fez o dia ficar mágico. De repente se ouvia o pulsar da cidade. Respirei fundo, pisquei meus olhos e quando abri vi tudo ali novamente. Os carros, os vários sinais de trânsito, as pessoas, enfim, tudo estava lindamente encantador. Brasília respirava cores, vários tons da mesma cor, banhados por um sol mágico.
Eu estava feliz, eu podia sentir isso. Mesmo aquele trânsito estranho da esplanada, que te faz parar praticamente em todos os sinais, mesmo convivendo naquele momento com outros motoristas que não estavam que nem eu, mesmo assim eu segui feliz, e continuei assim, mesmo depois de passar pela rodoviária (vamos combinar, para quem conhece Brasília, aquele lugar é horrível). Eu sentia a alegria em mim, eu era uma prece. Olhei para o espelho para ver meu rosto, queria fitar aqueles olhos pretos, e ver se eles passam tanta beleza quanto captavam. Lá estava eu, a mesma de sempre, e eu estava tão linda (já viu leonino se achar feio?). Eu estava pulsando tamanha energia, que quando cheguei no serviço contagiei a todos. O mundo já não era mais o mesmo, e eu nem saberia dizer agora, como tanta felicidade começou, só sei que toda vez que lembro da esplanada, aquele rapaz, aquele de seus vinte e poucos anos, imediatamente eu vejo um sorriso, e imediatamente eu preciso cantar bem alto e internamente:
Take it!
Take another little piece of my heart now, baby!
Oh, oh, break it!
Break another little bit of my heart now, darling, yeah, yeah,yeah.
Oh, oh, have a!
Have another little piece of my heart now, baby,
You know you got it if it makes you feel good,
Oh, yes indeed.
Essa música parece um mantra depois desse dia. As vezes me percebo em meio a toda essa verborragia, eu sei que alguns podem falar:
- Nossa, essa guria é louca, como pode achar que Janis é um mantra?
Não sei! Está ai uma boa resposta! Não sei como acho algumas coisas interessantes, outras monótonas, ou até mesmo, como dou significado a algo. Mas também não sei como pode haver tanta gente que passa por ali e não se encanta. Como pode haver tanta gente que caminha e não sorri, ou que simplesmente reclama do sol, da chuva, do vento, da brisa e da vida. Pouco tempo temos. Pouco demais. Eu respiro esse ar, e o ar que eu respiro já não volta mais para o pulmão, algo passou por mim e eu nem percebi. Não quero que a vida siga assim, não quero que algo passe por mim e eu não perceba. Talvez por isso me cativei com aquele jovem, talvez por isso cheguei ao serviço e fiz com que toda essa energia se mantivesse vibrante, talvez seja ela que me faça escrever . Só não sei o que ela poderá vir a fazer com quem ler esse texto. Mas daí já é outra história, por agora eu apenas fecho meus olhos, e volto a cantar Piece of my heart.
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